Em 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, o Hospital São Vicente de Paulo lançou a campanha interna “Construindo Saúde Mental”, nossa forma de somar ao Setembro Amarelo com uma mensagem direta a pacientes, familiares e colaboradores: sofrimento emocional é questão de saúde e merece a mesma atenção dedicada a qualquer outro sintoma. Mais do que uma data, a campanha propõe o lembrete permanente de que cuidar da mente é um exercício diário, não uma resposta de emergência.

“Construir saúde mental não é esperar que apareça um sofrimento intenso para então procurar ajuda. Porque saúde mental não é um estado permanente de felicidade, e sim uma construção diária, por meio de escolhas, relações, ambientes saudáveis, e acesso ao cuidado”, explica Dra. Karina Tenan, Diretora Técnica do HSVP.

É essa lógica que dá nome à campanha: saúde mental se constrói, e não se resgata apenas em momentos de crise. O convite é substituir o silêncio pela conversa e reconhecer que a prevenção acontece no cotidiano, em casa, no trabalho e nas relações próximas.

Os números que justificam a campanha

Os números dimensionam a urgência que motivou o “Construindo Saúde Mental”. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 700 mil pessoas morram por suicídio a cada ano no mundo. No Brasil, o Boletim Epidemiológico nº 4 (volume 55) do Ministério da Saúde contabilizou 15.507 óbitos por suicídio em 2021, sendo 77,8% deles entre homens, com maior concentração entre adolescentes e adultos jovens. A cartilha “Suicídio: informando para prevenir”, da Associação Brasileira de Psiquiatria com o Conselho Federal de Medicina, aponta que 96,8% dos casos registrados se associam a transtornos mentais que poderiam ser diagnosticados e tratados.

Por trás desses registros, a observação atenta aparece como ponto de partida acessível a qualquer pessoa. Mudanças de comportamento aparecem antes de uma crise e chegam primeiro a quem convive de perto. Afastamento de amigos e familiares, alterações persistentes no sono e no apetite, queda no rendimento escolar ou no trabalho, abandono de atividades que davam prazer, aumento do consumo de álcool e falas de desesperança ou de sentir-se um peso são sinais que pedem aproximação, não distância.

“Quando alguém que amamos muda de forma persistente, esse comportamento está comunicando algo. Nem sempre a pessoa consegue nomear o que sente, mas quase sempre ela dá sinais”, explica Franciely Bottaro, Supervisora de Psicologia do HSVP.

Falar sobre o assunto não aumenta o risco

Um dos maiores obstáculos à prevenção é o receio de tocar no assunto. A crença de que falar sobre suicídio estimula o comportamento não se sustenta. Serviços públicos de saúde e sociedades médicas reforçam o contrário, que conversar com respeito e sem julgamento ajuda a pessoa em crise a organizar o que sente e abre caminho para o cuidado. Escutar sem pressa, sem minimizar a dor e sem oferecer soluções rápidas vale mais do que qualquer conselho. Acolher não exige formação em saúde mental nem respostas prontas. Exige presença, disponibilidade para ouvir e disposição para acompanhar a pessoa até um serviço de ajuda.

Uma construção que continua depois de setembro

Referência nacional e internacional em qualidade e segurança do paciente, o HSVP entende que cuidar de forma integral é olhar também para o que não aparece nos exames. A mesma atenção que orienta nossos protocolos assistenciais orienta a escuta de pacientes, acompanhantes e colaboradores, sustentada por equipes multiprofissionais e pela vocação para cuidar.